Interessante como os assuntos em uma conversa tomam um rumo diferente ao longo do pequeno tempo de discussão… Ontem à noite ao ir na sala para experimentar um jogo de Playstation2 (Dragon Ball :), acabei não sei como começando a conversar os mais diversos assuntos com o colega Fábio que está passando um tempo aqui conosco em São Paulo.
Felizmente o tema da discussão não foi futebol, nem política, nem religião. Começou com pequenas discussões sobre os comportamentos das pessoas de acordo com seus gostos musicais, se desenvolveu para as drogas e suas influências nas camadas e grupos de pessoas (tendo um ápice inclusive na classificação neurológica dos seus diversos tipos, além da influência da banalidade e ilegalidade das mesmas), depois para como o nosso cérebro e mente funcionam, e que na verdade eles podem ser ditos como se fossem um só; e partindo disso finalmente começamos a colocar diferenças entre o funcionamento do nosso cérebro e algumas analogias com o funcionamento dos computadores.
Não vou nem começar a dizer aqui que nesse ponto, chegamos a falar sobre códigos binários, correntes alternadas, representação de números e como dispositivos de memória funcionam, tanto no computador quanto em nossos neurônios.
Depois de tantos assuntos interessantes, veio uma questão que me incomodava há algum tempo: por que diabos eu não consigo mais me concentrar em certas coisas como antes? Por que minha memória é tão fraca hoje em dia, sendo que ainda sou tão novo? Então Fábio disse que tinha o mesmo problema e que isso era bem característico das pessoas que cresceram na Internet.
Mas como assim? No meu problema, identifico dois sintomas bem específicos:
- Falta de concentração para fazer uma coisa só. Não se consegue estudar, ler algo, sem estar sempre olhando ou pensando em outras coisas também. Antigamente era tão fácil escrever, escrevia-se tanto, sem nenhuma preocupação com o restante. Mas com o tempo isso mudou e agora a demora é muito maior para se escrever algo. Talvez por isso às vezes acho que minha produtividade está um lixo e eu me sinto inútil por causa disso.
- A memória simplesmente não funciona muito bem. Talvez pela não concentração, a maioria das coisas na vida se torna tão “não-especial” como deveria ser que a memória simplesmente descarta e deixa escondidinho. Por exemplo, acabei de ler a “trilogia de quatro livros” do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas sei que daqui há um ano eu vou ter me esquecido completamente dos 4 livros. A única vantagem nisso é que se eu ler de novo vou me deliciar tanto quanto me deliciei esses dias.
Acredito que muita gente tem esses sintomas, principalmente aquelas que, como eu, cresceram com a Internet e simplesmente não podem largar. Alguns estudiosos chamam esse tipo de coisa de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, mas eu prefiro dizer que é apenas um hábito que pessoas como eu desenvolveram ao longo da sua vida. Talvez este hábito, por alguma razão, tenha se tornado insuportável e a pessoa queira mudar e se desenvolver de alguma forma.
A primeira coisa que devemos fazer é identificar as causas dos problemas que queremos eliminar. É igual à quando dá algum pau no computador, antes de consertar você obviamente tem que descobrir em meio a toda aquela parafernalha de software e hardware qual é o problema e assim atacar ele. Tá certo que na maioria das vezes as pessoas usam o incrível método “tentativa e erro”, mas isso nem sempre funciona como esperado. Pois bem, tentei encontrar as causas para os principais dois problemas descritos acima:
- Ah, computadores. Computadores são multi-tarefa, nós somos multi-tarefa, até muito mais que eles. Os computadores podem ter 2 ou 4 processadores, ou até vários processadores em um Grid, mas a mente humana consegue processar informações paralelamente como ninguém. E não, essas informações não são tão exatas como um computador (pois não funcionam em formato 0 e 1), mas isso não torna o cérebro menos poderoso. Ao mesmo tempo que eu escrevo um texto como este, ouço música, percebo que meu colega Rafael está na sala jogando Resident Evil 4, e que duas amigas minhas estão conversando comigo no MSN. Ah, no meu navegador também tem o Gmail aberto com alguns e-mails chegando e pesquisas no Google sobre várias coisas incluindo o nome do maldito vocalista do Jota Quest (ao qual uma amiga minha odeia com todas as forças, segundo ela) e o termo “Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade”. Sentiu o drama? Como alguém pode se concentrar com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo?Essas janelinhas piscando, terminais do Linux sempre acessíveis com as teclas alt+espaço (viva o yakuake), e-mails chegando… Como eu vou conseguir me concentrar na escrita do texto se tenho que, paralelamente, dividir a carga com todas essas coisas? Ler algo e se concentrar na leitura? Impossível. Em um texto técnico por exemplo, você abre o tutorial e fica fazendo várias coisas ao mesmo tempo que lê aquilo.
- Fábio conclui de forma bastante concisa a causa disso, baseada em algo que ele viu e que eu não me lembro (LOL!) de um texto de alguém que eu também não me lembro. O que me lembro é que se falava de “implantes cibernéticos”, e o tema pode ser definido da seguinte forma: “a Internet com sua infinita memória e com sua incrível facilidade de acesso às informações proporcionou uma extensão da mente, onde você pode sempre consultar sua memória externa através do Google por exemplo; feita a busca e obtido o resultado, você usa esta informação e descarta do cérebro sem perceber muito, porque obviamente você sabe lá no fundo que aquilo está na Internet (sua memória externa) e pode buscar a qualquer momento novamente. Viva o Google e a Wikipedia.Assim como a TV e imagem virou um novo “sentido” de entrada de informações para as pessoas, a Internet acabou virando uma verdadeira extensão da memória. Flood de informações! Como não sabemos usar nosso cérebro direito, não conseguimos arcar com tudo isso e descartamos boa parte do que seria interessante para nós.Isso explica bem o porque de quando eu era menor, minha memória para as coisas de Linux fosse bem melhor. Talvez por não haver tanta informação na Internet e buscadores eficientes que facilitavam o acesso à esta informação, eu me virava bem. Aparecia um problema e eu suava para resolver sozinho e com a ajuda de listas de discussão. Hoje se aparecer um problema eu copio e colo no Google e obtenho a resposta em 27.3 segundos. Prático, porém a longo prazo estraga com a gente.
Depois de identificado as causas dos problemas, vem a parte mais difícil: solucioná-los! Bem, essa parte eu ainda não consegui identificar muito bem, porque, errrrr, eu ainda não solucionei o caso para mim mesmo :P Mais uma vez, tentarei listar alguns dos pontos-chave para cada um dos sintomas listados anteriormente neste texto.
- Parar de usar computador. NÃO! Não dá, minha vida social e profissional depende muito disso. Mas acredito que a principal coisa que se deve fazer para amenizar esse problema é se regular no uso. Ah, isso também é muito difícil. Então que tal usar menos o computador? Isso até dá para fazer. Inclusive acredito que seja a melhor forma de resolver. Ao invés de você trabalhar o dia todo na frente do computador fazendo várias coisas ao mesmo tempo sem parar, e quando chegar em casa, ligar o computador e fazer a mesma coisa sentando e ficando na frente do computador a noite toda também, que tal você simplesmente ir fazer alguma coisa? De preferência encontre alguém e fique falando besteiras até explodir. Ou melhor ainda, encontre uma mulher/homem e fique falando besteiras excitantes até explodir. Isso além de te ajudar socialmente, te ajuda neste problema.Ah, e outra coisa legal: leia antes de dormir. Leia qualquer coisa. Deite na cama e leia, até ficar com muito sono e dormir. Marque a página e continue lendo no outro dia. Essa parte para mim é bastante difícil: quando eu começo a ler não quero parar mais até acabar (na verdade isso é um outro problema meu que não tem nada haver com este texto), como na vez que comecei a ler Berserk as 20:00 e terminei de ler um bilhão de volumes amanhacendo.Vai fazer alguma coisa mais específica, escrever um texto ou estudar? Desligue temporariamente o MSN. Não to dizendo para você parar de usar, apenas desligue e ligue depois que acabou. Não adianta colocar no Away porque ninguém respeita o status, nem você mesmo. Desligue e vá fazer a coisa. No começo você vai sentir a necessidade de clicar na janela pra ver se tem alguém interessante e/ou importante, ou vai ficar toda hora vendo se tem alguém falando com você. Mas depois de um tempo você desencana e acostuma com o silêncio visual.
- Escrever. Escrever. Escrever. Eu, como instrutor experiente, sei muito bem o que isso significa. Quando falo escrever, escreva para os outros. Por exemplo, eu estou escrevendo o texto não apenas para mim mesmo mas para você que está lendo. Escrever para os outros reforça a idéia na sua mente e você procura outras formas de se comunicar sobre o assunto, assim os outros vão te entender melhor. Conseqüentemente, como todos os professores falam, você acaba aprendendo muito mais com isso.Além do mais, quando você escreve para os outros, quer dizer que você está querendo compartilhar conhecimento. E pode ter certeza que esse seu conhecimento vai ser admirado por alguma pessoa, quer seja o conhecimento. Pode apostar que se você escrever sobre como as formigas soltam gases, por mais que isso pareça um absurdo (ou não), alguma pessoa vai se interessar pelo seu texto. Já que você não consegue se desvincular da internet e seu flood de informações, use-a para seu próprio proveito! RÁR-RÁR!Ah, e quando se esquecer de algo, vá ler o que você escreveu. Ninguém melhor do que você mesmo para entender o que você mesmo escreveu.E falando em escrever, Carlos Castañeda em um de seus livros conta um método bastante interessante para melhorar a memória e até se desprender de certas raízes que sua mente se encontra. O método consiste em começar, pelo menos uma ou duas horas por dia, a se sentar e escrever em um caderno o nome de todas as pessoas que você encontrou na sua vida, partindo do mais atual para o mais antigo. Pense bastante e tente sempre colocar o nome destas pessoas no papel. Depois comece a colocar também acontecimentos (mesmo que “inúteis”) relacionados à essas pessoas. Por fim, comece a associar as pessoas entre si. Desta forma você estará treinando o seu cérebro pra fazer associassões de memórias melhores e ajudando basicamente na forma de você lembrar das coisas. Isso também tem outros efeitos, mas aí já sai um pouco do escopo do texto e se interessar, leia os livros do Castañeda.
Acredito eu que estas são algumas das formas mais “leves” de se corrigir este tipo de hábito. Claro que existem as formas mais radicais, tais como os conselhos estilo Steve Jobs: “vá para a índia em busca da iluminação pessoal”. Acredito que este tipo de coisa não é necessária, ao invés de eu ir pra Índia procurar iluminação divina, eu vou é juntar uma grana pra comprar uma Harley Davidson e buscar iluminação divina andando de moto na estrada.
Talvez a única forma de mudança de hábito que eu me interesso seria a quebra da realidade atual da pessoa, para reconstruir um novo ego e uma nova percepção das coisas, fazendo assim você adquirir hábitos totalmente novos. Isso se baseia na premissa básica da frase: “Nada melhor que um grande trauma para você se tocar de alguma coisa e mudar”. Um exemplo disso seria a minha ex-namorada, mas sabe como é, quem sabe este assunto vago fique para outra hora…
…Enquanto isso, boa sorte para nós!